terça-feira, 20 de junho de 2017
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Pai-ssarinho
Foto: Sandra Raquew Azevedo.
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| Painho e as mulheres de Abelardo da Hora |
No último janeiro perdi meu pai. Fiquei dias a fio, pensando, querendo falar sobre o assunto. Um texto da Eliane Brum me encorajou a expressar a experiência. Milhões de sentimentos e idéias me povoaram desde o momento que em novembro soube que seu estado de adoemecimento era definitivo. Em setembro, vindo de São Paulo encontro meu pai em João Pessoa numa rotina de exames. Até então pensei que fosse algo comum aos sertanejos que têm que se deslocar para a capital para acesso aos serviços de saúde. Porque existem romarias religiosas, que são hábitos da fé de quem vive no interior.
Mas há outros tipos de romaria que são os suplícios impostos pela negação de direitos. No interior do Brasil as pessoas já se acostumaram a esperar milagres de cura, e alguns acontecem como expressam os ex-votos. Lá a gente também vê um poder incrível se manifestar por um saber mais profundo: o das ervas, das plantas medicinais. Há muitos homens e mulheres com essa conhecimento mágico dentro de si, como meu pai e minha mãe, cujo trato sagrado com as plantas resguardou a minha vida por décadas sem nenhuma outra química em meu corpo. Há ainda um hábito gerado pela ausência de saúde preventiva e condições de acesso à uma consulta médica, que é a prática de se automedicar. A automedicação é um estopim, uma bomba-relógio, porque mascara situações de muita periculosidade. Isso também associado ao fato de que o clientelismo mina o sistema de saúde. Se tem uma área no Brasil em que as práticas clientelistas são latentes, é o campo da saúde pública, isso acompanha praticamente toda a gestão do sistema, na prática.
O clientelismo se expressa desde a indicação dos cargos para gestão de hospitais e serviços de saúde à prática de carregar pacientes para assistência em outros centros, em geral nas maiores cidades. Quando você observa a realidade dos hospitais especializados em oncologia, você constata a humilhação que as pessoas passam por terem de sair de suas casas para um tratamento tão agressivo quanto uma quimioterapia, entre outros. Por viagens de longa distância, por estarem longe de seus parentes, e por não terem muito apoio, exceto pela presença de voluntários que povoam alguns hospitais, trazendo algum tipo de conforto ou esperança. Isso acontece também com os exames de maior complexidade, tendo em vista que grande parte das cidades não dispõe deles, quer seja na rede pública ou privada.
Há quase quatorze anos passados, com a perda de minha mãe, fui assediada por um gestor público em saúde quando questionei o descaso do hospital com a paciente diabética. Tendo ela esperado mais de seis horas para fazer um teste de glicemia, e por receber um diagnóstico de infarto que só chegou dois dias depois de sua internação, quando todos os sintomas apontavam essa realidade. O gestor do alto de sua infame "superioridade" olhou para mim e disse que ela, já na UTI, estava tomando um remédio de R$ 800,00. Como se o remédio fosse um favor. Poucas horas depois minha mãe morreria. Assim amarguei meu luto, e por longos meses as conseqüências de um stresse pós-traumático pela violência institucional sofrida. Isso acontece com muita gente, infelizmente nesta estatística cabe um número enorme de pessoas, pela ausência de uma assistência humanizada. Aquele, sem sobra de dúvida, foi o pior dia da minha vida, cuja lembrança só é amenizada por um beijo de despedida que recebi na testa por minha mãe, como expressão de um respeito e amor profundo. Assim nos despedimos.
Com meu pai, a assistência foi digna, e fez toda diferença no entendimento de seu processo de adoecimento, como de sua finitude. Ele foi assistido por médicos do Sistema Único de Saúde, certamente com outro entendimento de saúde pública, o que pôde garantir uma assistência digna, respeitosa. A circunstância não me livrou da tristeza por saber que, concretamente, a cada dia, ele partia, devagar, numa realidade que nada ou ninguém poderia mudar, era definitivo. Isso tem um efeito que ainda nem sei ao certo descrever. Nesses meses vivia tudo com meu pai como se fosse o último minuto. Não fomos enganados, mas meu pai foi, na medida do possível, preservado, e assim pôde ter um morrer com dignidade. Quando se têm consciência de que o amanhã não pode existir há uma mudança radical dentro da gente. No meu caso, o desejo de sair correndo e me agarrar desesperadamente ao meu pai, deu lugar a um equilíbrio que jamais pensei que houvesse existir em mim.
Caminhamos assim por alguns meses. Ele, na esperança de que a situação poderia ser transformada. Eu, me entregando ao melhor que podia fazer: ao estar junto, alimentado, cuidando, rindo e me divertindo junto com ele. E por incrível que pareça, vivemos nossos melhores momentos, desde os nossos passeios de Lambreta, nos anos 70. Ele reviu a Torre, bairro que passou um tempo de sua juventude. Curtiu muito o entardecer frente ao mar, conversando, rindo. Passeamos por João Pessoa, encontrando amigos e o Centro histórico, ele me contou muitas histórias de sua infância. Ele sempre gostou de passarinho, e de modo poético, muitos passarinhos o visitaram em minha varanda, num lugar em que repousava durante às tarde de seu último verão.
Pude retribuir um pouco do que recebi, fazendo as comidas de que gostava, dando massagem, lendo a Bíblia, orando, tocando violão e cantando. E por fim, ainda tivemos o Natal, contemplando as estrelas, num luar do Sertão, dentro do mato, no sítio. Falamos de nós, dos antepassados e descendentes. E em momentos não falando nada.
Depois do Natal sentíamos que a situação se tornava cada vez mais delicada. E assim foi nos dias restantes. Mesmo assim tivemos memoráveis horas na passagem de Ano Novo e em seu aniversário. E, em sua última visita, quando a esperança de meu pai dava lugar a conformidade. Nesse domingo de janeiro ainda ví um pouco de força em seu olhar, e assistimos Jair Rodrigues na tv: “prepare o seu coração, para as coisas que vou contar, eu venho lá do Sertão, eu venho lá do Sertão, e posso não lhe agradar. Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar…”
Ele partiu assim como um passarinho no ninho, comia beliscando, se deixando ir dormindo, na rede, aos poucos, consigo mesmo, ensimesmado. Porque era assim mesmo, de muito humor, e poucas palavras, quase tudo dizia com o olhar. Foi assim que passamos esses meses que escorregavam intensamente de minhas mãos, olhando um para o outro, dizendo tudo secretamente, cúmplices de uma peleja pela Vida, sem nunca ter dito um adeus.
Dedico esse texto aos médicos que cuidaram de meu pai: José Eymard Medeiros Filho, Eduardo Sérgio Sousa, Marcelo Gonçalves, Ana Caroline Montenegro, Ayreme Wanderley Ducas e Silva, Jean Fabrício de Lima Pereira, Danielly Brito e Débora Malacar; às equipes do Hospital Universitário Lauro e Hospital Napoleão Laureano; Carlos e Icaro Azevedo, pela cumplicidade, e aos amigos e amigas que oraram por nós.
terça-feira, 19 de abril de 2016
19 de Abril
Todos os anos se comemora no Brasil o Dia do Índio. Nada contra a Data, entendo apenas que não consegue ainda expressar ou refletir um debate mais sincero sobre a condição indígena no Brasil.
Acho que muito distante até das políticas afirmativas no tocante à população negra, o reconhecimento étnico indígenas ainda é muito tímido e talvez distante da realidade dos diferentes povos vivem aqui de modo ancestral.
Seria muito significativo se no campo da cultura, comunicação, artes, entre outros, houvesse um maior inclusão das questões indígenas do Brasil.
Ao assistir o Abraço da Serpente, filme colombiano dirigido por Ciro Guerra, lembrei de outro filme provocador, o Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco. Como é desafiador pensar o mundo, a ciência, a cultura, o meio ambiente a partir de outra Cosmovisão. Filmes O Abraço da Serpente, Brincando nos Campos do Senhor, Kiriku e a Feiticeira, Azur e Asmar, O Menino e o Mundo, falam de processos e sujeitos singulares, deixam explicita a violência simbólica do processo civilizador, ou da colonização, da nossa indiferença cotidiana. Mas também nos apresentam outros exercícios de ver o mundo, os sujeitos e a particularidade de suas culturas, e de quanto essa diversidade humana é vital.
Acho que muito distante até das políticas afirmativas no tocante à população negra, o reconhecimento étnico indígenas ainda é muito tímido e talvez distante da realidade dos diferentes povos vivem aqui de modo ancestral.
Seria muito significativo se no campo da cultura, comunicação, artes, entre outros, houvesse um maior inclusão das questões indígenas do Brasil.
Ao assistir o Abraço da Serpente, filme colombiano dirigido por Ciro Guerra, lembrei de outro filme provocador, o Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco. Como é desafiador pensar o mundo, a ciência, a cultura, o meio ambiente a partir de outra Cosmovisão. Filmes O Abraço da Serpente, Brincando nos Campos do Senhor, Kiriku e a Feiticeira, Azur e Asmar, O Menino e o Mundo, falam de processos e sujeitos singulares, deixam explicita a violência simbólica do processo civilizador, ou da colonização, da nossa indiferença cotidiana. Mas também nos apresentam outros exercícios de ver o mundo, os sujeitos e a particularidade de suas culturas, e de quanto essa diversidade humana é vital.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
GRANDES OLHOS E A VIOLÊNCIA PATRIMONIAL
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| Margaret Keane e sua obra artística Foto de divulgação da CBS NEWS |
Recentemente tive a oportunidade de ver o filme dirigido por Tim Burton( Big Eyes, 2014), e protagonizado por Amy Adams e Cristoph Waltz, sobre a pintora Margaret Keane. Embora o filme seja ambientado nos anos 1950, a sua temática apresenta uma experiência vivida por mulheres em pleno Século XXI: a violência patrimonial.
O filme populariza a história da artista, que foi uma das mais rentáveis dos anos 1950, mas cujo trabalho autoral só fora reconhecido após levar seu marido, Walter Keane, ao Tribunal. Motivo: roubo de propriedade intelectual. O marido por cerca de dez anos se apoderou do dinheiro e do reconhecimento social que seria por direito de sua esposa, afirmando ser ele, o verdadeiro autor das obras de Margaret.
Apesar de toda excelência do filme, tanto pelos intérpretes, quanto na primorosa direção de arte e fotografia, Big Eyes não me saiu da cabeça por me fazer lembrar inúmeras personagens femininas que enfrentam sob diferentes aspectos esse tipo de situação. Diria que a cultura de violência contra mulheres é complexa e tanto quanto as agressões físicas, humilhações verbais e estupros, é difícil falar publicamente sobre um contexto no qual os companheiros/companheiras (filhos, entre outros) das mulheres se apropriam de seus bens materiais e de sua propriedade intelectual.
Falar nesse assunto é difícil por se tratar da intimidade das pessoas, e por muitas mulheres ainda insistirem em manter a imagem de estar vivendo relações justas, igualitárias, sem grandes problemas ou um ‘conto de fadas'.Ou porque ainda muitas querem manter uma reprodução dos papéis tradicionais de gênero em que o homem aparece como mantenedor, ainda que apenas em seu imaginário. Ou por uma situação ainda mais real que é o medo de se ferir, de perder e de morrer.
A questão é que a violência patrimonial é caracterizada por uma conduta que se traduz na retenção, subtração ou destruição parcial ou total de bens, de objetos, de instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos. Há situações de coerção, humilhações, roubo, enfim, de inúmeras apropriações indevidas.
Todavia no tocante à violência patrimonial acho que além do direito ao que lhe pertence material e intelectualmente, há situações em que se roubam os desejos e necessidades da outra pessoa, os sonhos, a vontade de querer.
Anos atras fiz uma pesquisa sobre participação das mulheres nos mercados das feiras orgânicas e impactos sobre a autonomia feminina, e as situações de violência patrimonial estavam sutilmente lá estabelecidas: no controle do dinheiro pelos homens; na apropriação da força de trabalho das mulheres por maridos, filhos; na subtração de suas necessidades básicas em detrimento às necessidades da unidade doméstica. Por outro lado, o acesso aos mercados, em alguns contextos, era conquistar o direito de ir e vir; de poder ver (re)conhecida suas capacidades; de poder desejar sem subordinar seus sonhos a outros, era conquistar legitimidade social.
Hoje por coincidência encontrei uma mãe que reclamava do filho, que queria impor a ela o seu sustento e de sua companheira. Aflita falava em procurar a Delegacia por se sentir ameaçada.
Por isso acho a violência patrimonial tão perversa quanto as demais tipologias de violência contra mulheres, porque no imaginário de quem a exercita, elas não estariam fazendo mais que sua obrigação de mãe, esposa, mulher… ou sendo ameaçadas e penalizadas por não cumprir as demandas de cônjuges, filhos(as), companheiros e companheiras.
O drama de Margaret Keane revela esse lado muitas vezes oculto das relações entre homens e esposas; mães e seus filhos(as) e entre as próprias mulheres.
domingo, 2 de novembro de 2014
Cemitério
Nunca tive medo deles. Na infância, minha mãe me levava sempre, pois cuidava do túmulo da família. Desde muito cedo era lugar comum. Um ritual mensal de visita, pois lá estavam minha avó, avô e uma tia, que como minha avó e minha mãe morreram antes de envelhecer, de chegar a tal melhor idade.
Foi uma emoção inevitável ao ver Volver, do Almodóvar, sentir uma cumplicidade transcultural ao encontrar as mulheres cuidado de seus mortos( tão vivos, tão presentes). Também foi um momento singular a leitura da Solidão dos Moribundos, livro do Nobert Elias, pois veio cheio de reencontros com momentos da infância no Sertão, onde nós crianças colhíamos flores para vestir nossos mortos, parentes, amigos ou vizinhos. Então isso descortinou o medo de Morte. Mas hoje, depois de um filho, não de morrer…
Esse anos, depois de mais de uma década, reencontrei o Cemitério de minha infância ao me despedir de Ivontônio, amigo querido que partiu, coincidentemente no mesmo dia que minha mãe, e bem mais novo que ela. Entrei naquele lugar como numa casa antiga, conhecida e misteriosa… Para guardar o que ainda iria existir por um pouco de tempo, e constatar que que o Eterno que há nas pessoas transcende qualquer espaço físico e o ritual dos mortos…
Depois de guardar meu amigo fui sozinha aquele lugar da infância onde só encontrava a fotos dos avós e tia, e vi lá uma foto que havia feito de minha mãe. Acho que a melhor foto dela que já fiz pois conseguiu, milagrosamente, captar aquele olhar que para mim sempre sorriu.
Na memória de tudo que vivemos e do Todo nos encontramos, e nos deixamos partir em paz.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
UNIVERSIDADE E ELEIÇÕES: UM DEBATE NECESSÁRIO
Último dia 16 fui surpreendida pelo noticiário local e também por informações nas redes sociais sobre o tumulto na Universidade Federal da Paraíba, gerado por tensões entre parte da comunidade universitária, participantes de um Ato em defesa dos atuais candidatos à Presidência da República e Justiça Eleitoral, que resultou na intervenção da polícia militar na UFPB.
O acontecimento me chamou a atenção não só a partir dos argumentos de estudantes, docentes e técnicos da Instituição favoráveis ou contrários à intervenção da polícia no Campus, e todos os desdobramentos desse fato, realmente lamentável, na imprensa e sobretudo no cotidiano da Universidade. Mas, especialmente, pelo fato que ao longo dos anos paira sobre o ambiente universitário, sob meu ponto de vista, o esvaziamento do debate sobre o ensino superior nas plataformas dos candidatos.
Senti uma lacuna tremenda da presença da Universidade no debate público sobre as Eleições 2014. É claro que é terminantemente proibido pela legislação manifestações partidárias na instituição. De outro modo percebo que muitas categorias e segmentos sociais vêm colocando suas demandas e problematizando seu contexto de atuação e questionando os Programas de Governo de muitos candidatos. A UFPB ao longo de sua história contribuiu de forma excepcional também para a formação política de várias gerações, não é por acaso que muitos dos candidatos e parlamentares eleitos começaram sua trajetória política na Universidade, ou integram os quadros da Instituição.
No entanto, contraditoriamente, há mais recentemente um esvaziamento da ação política da comunidade universitária - observando a política para além do partidarismo.
Há poucos dias penso que o tempo é bem restrito para se discutir com os candidatos os pontos que para nós são estratégicos para o avanço das políticas de fomento à pesquisa, à estrutura das Universidades, à carreira docente, a economia do conhecimento e seu papel no desenvolvimento local sustentável, entre outros temas tão pertinentes porém que não se fazem visíveis.
Tomara que essa tensão provocada pelo acirramento da disputa nas Eleições 2014 possa, quem sabe, nos fazer pensar além das cores e bandeiras, e oxalá consiga retirar a Universidade de um lugar secundário ou de invisibilidade dos Programas de Governo dos candidatos.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Exposição Feiras do Semiárido
Acontece
na manhã dessa terça-feira, 24, véspera de Natal, a Exposição Fotográfica Feiras
do Semiárido, que apresenta o trabalho dos fotógrafos Carlos Azevêdo, Roberta
Ramos e Sandra Raquew Azevêdo. A exposição será aberta durante a Feira
Agroecológica realizada no Museu do Algodão, a partir das 6h, em Campina Grande.
O Museu do
Algodão fica situado à Rua Benjamin Constant, próximo ao Açude Velho.
O trabalho é o resultado de um
registro etnográfico nas feiras de produtos orgânicos organizadas por agricultoras
e agricultores do Pólo Sindical da Borborema, nos municípios de Campina Grande
e Lagoa Seca. Durante dois
anos os fotógrafos fizeram o registro do cotidiano dos agricultores,
especialmente das mulheres rurais, nas feiras e em suas propriedades como parte
integrante do projeto de pesquisa sobre a participação feminina no mercado de
produtos orgânicos, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico, CNPq.
| Foto: Sandra Raquew Azevêdo |
As fotografias podem ser
apreciadas por agricultores e consumidores da Feira durante mais um aniversário
da Campanha Natal sem Veneno, que teve
início em 2003, como marco inaugural do acesso dos agricultores familiares aos
mercados de produtos orgânicos na Paraíba. O trabalho do Pólo Sindical da
Borborema teve início em 1996, de acordo com Diógenes Chaves, técnico da
entidade, no intuito consolidar dinâmicas de experimentação e intercambio na
agricultura familiar voltados à produção agroecológica.
Atualmente a entidade está à
frente da realização de oito feiras, nos municípios de Campina Grande, Lagoa Seca,
Esperança, Massaranduba, Alagoa Nova, Remígio e Solânea, envolvendo a produção
e comercialização de produtos orgânicos de cerca de 120 agricultores familiares
de 16 municípios da região do Agreste da Borborema.
Sobre os fotógrafos - Carlos Azevêdo é jornalista, docente do DECOM-UFPB e ganhador do Lambe-Lambe Novos Talentos da Fotografia Paraibana pela Agência Ensaio. Roberta Ramos é estudante de Comunicação Social, da UFCG e educomunciadora. E Sandra Raquew Azevêdo é jornalista, docente de jornalismo na UFPB e realiza pesquisas com o apoio do CNPq. Já participou das Mostras Fotográficas Lambe-Lambe Novos Talentos da Fotografia Paraibana, Mulheres Fotógrafas - panorama da fotografia brasileira produzida na Parahyba e Etnografias do Invisível (Coletivo Conspirando, Santiago do Chile).
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Ser-tão
| Rumo à Cidade do Sol. Foto: Sandra Raquew Azevêdo |
Celebro hoje o aniversário da
minha cidade natal, Patos. Não tenho como esquecer, porque, de sobressalto,
menstruei no mesmo dia do aniversário da cidade, décadas atrás. E essa
travessia me fez fixar a data num ciclo que se repete. Compasso de tantas
estações.
Não guardo ufanismos em torno
desse lugar de origem, mas sei do muito que levo que se vincula profundamente a
esse espaço. Migrei como tantas pessoas de minha geração. A migração, segundo o
romance histórico, Malinche, é um ato de sobrevivência...
Patos, essa cidade como um rio,
me atravessa. Cheguei e parti infinitas vezes, sempre diferente. Perdi pessoas insubstituíveis,
mantive meus laços mais primitivos, e arrastei comigo um modo de ver a mim
mesma e o mundo, diverso, como um fragmento desse lugar.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
As guerras não são apenas notícias...
| Foto: Carlos Azevêdo. Chapada dos Guimarães, 2011. |
Parece tão óbvio isso. Há dias um
desconforto me ronda. Angustia provocada por uma foto produzida em meio às
mortes na Síria, nas últimas semanas. Crianças mortas, tantas... Imensurável
dor. Fiquei pensando no “silêncio” das notícias nas páginas de revistas e
jornais. No continuum de mortes cotidianas, em diferentes lugares do Planeta...
Nessa saturação de imagens de guerras...
As notícias desorientam,
anestesiam muitas vezes. Consumimos informação quase em tempo integral, real,
tão tudo, ao mesmo tempo-agora que talvez estejamos rompendo com algo relevante
para a produção social das notícias: um tempo para pensar sobre elas; a
hierarquia dos acontecimentos talvez...
Não é possível, penso, conciliar
a imagem das crianças mortas na Síria com a saturação de imagens nas telas de
computadores, TVs, redes sociais, incluindo no mesmo tempo-espaço o
entretenimento, a piada do momento, o meme, as denúncias contra corrupção, a
cobertura do Mensalão, a vinda dos médicos estrangeiros para o Brasil, os novos
vídeos de humor no youtube ... as fotografias das comidas que digerimos como se
fossem uma mesma pauta.
É muito particular o que digo: mas
me senti tão assustada povoada com os rostos das crianças forçadas a deixar seu
lugar, sua vida. E fiquei me questionando sobre o que nos faz acreditar que
superamos a barbárie e a banalidade do século passado, ou ainda pensar que num
mundo globalizado as guerras são setoriais? E crer que só a “Liga da Justiça”
dos países desenvolvidos é capaz de promover a paz.
Talvez tenhamos entrado no Século
XXI sob o signo do terror da inconsciência, inconsistência, ou num autismo
voluntário, não sei... Sinto que dói e assusta, desestabiliza o que resta de
humano.
Por fim, essa semana, durante o
apagão no Nordeste me surpreendi com o clima de “terror”, me senti num daqueles
filmes apocalípticos, lembrei de Orson Wells, na Guerra dos Mundos. Porque era
uma agonia generalizada nas ruas da cidade de João Pessoa, no trânsito. Embora
o mar estivesse lindo, embora o apagão também fosse uma oportunidade de voltar
ao ciclo do tempo natural, nos sentíamos perdidos, desamparados sem o signo da
luz elétrica, formigas atônitas. Lembrei nesse interstício da ausência de luz
no sertão da infância, no luar, nas estrelas, nas pessoas conversando à luz de
velas e lamparinas, lembrei das histórias, dos nossos mitos. E quis esquecer o
mundo e voltar à Caverna de Platão.
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
Mulheres Poemas...
Escrever é um ato de coragem, e
um pouco de loucura. Me refiro a atitude consciente de buscar nas palavras uma
forma de transcendência, política e expressão. Nas últimas décadas muitas das
coisas que fiz vinculam-se a escrita, mas pelo caráter ainda sisudo das
ciências, acabei por entre teses, dissertações e artigos acadêmicos vivendo, de
certa maneira, um hiato - grande, porque não dizer – entre outras formas de
narrar.
Entretanto foi na observação de
algumas mulheres poemas que povoam meu cotidiano e imaginário que pude outra
vez sentir o gosto, o desejo, de voltar a experimentar o texto, a partir de um
espaço íntimo, sagrado e criativo
Irmã Agostinha Vieira de Melo(do
bairro de Mandacarú), Ana Coutinho de Sales, Ana Adelaide Peixoto, Eliane Brum,
Mary Judy Ress, Cicilia Peruzzo e Vitória Lima. Mulheres com diversos
marcadores de diferenças entre si... e próximas por sua identidade, intimidade,
autonomia, consciência e liberdade na busca diária por dizer algumas palavras.
Fazendo de seus textos espaços de mediação, de vinculo social, memória,
sobrevivência, transgressão, arte, restauração.
De um modo muito particular as
linhas imaginárias e a tessitura dessas escritas femininas-feministas me
tocaram ao longo desse último ano que marcou a entrada na Idade da Loba, num
contexto no qual era necessário “cantar
sobre ossos secos”, assim como La Loba, de Clarice Pinkola Estés .
E retomar uma metáfora bíblica do texto de Ezequiel, em que num vale de
ossos secos se vê literalmente brotar à vida, e cuja descrição assustadora e
inteligente tanto poderia servir de inspiração ao George Lucas, quanto mostrar
que a escuta e a descoberta das palavras que
fazem sentido podem fazer renascer.
Essas mulheres sopram
encantadoramente sua esperança em contextos difíceis, em solos áridos num mundo
que parece às vezes desnorteado pelo excesso de verbos-imagens e ausência de
sujeitos-humanos. Algumas escrevem poemas secretamente e escutam horas sem fim
mistérios e sonhos de andarilhos que batem às suas portas ou que encontram nas
ruas, na vida; outras provocam mulheres mundo a fora para reescrever sua
própria história e falar desse tempo presente.
Às vezes elas moldam e refazem
suas dores e perdas soprando suas palavras-chave como verdadeiros cristais.
Elas acreditam e se deslocam de suas zonas de conforto, em direção “ao mais
humano, a mais amor por tudo”.
Sei que no encontro com o
silencio, a escuta, a leitura da narrativa dessas mulheres me descubro um pouco
mais e sinto suas escritas como dádivas, assim como celebro o encontro das
Águas (chuvas) e Terra, por tornar as estações fecundas.
| Foto de Ícaro Azevedo, escultura do artista paraibano Chico Ferreira |
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Crime ou besteira?[i]
Sandra
Raquew dos Santos Azevêdo.
Último dia 19, numa terça-feira, o homicídio da professora
universitária Bríggida Roseli de Azevêdo, 28 anos, pautou os principais meios
de comunicação do Estado. A professora foi assassinada dentro de casa, conforme
a imprensa, com sinais de asfixia por estrangulamento. Por se tratar de uma
ocorrência que envolvia um suspeito advindo de família tida como tradicional na
sociedade paraibana, o evento noticiável adquire, conforme discute a socióloga
Eva Blay(2004), maior notoriedade no agendamento midiático.
O que nos alertou na cobertura sobre a violência contra
mulher, não foi a constatação de como os assassinatos femininos resultantes das
desigualdades de poder entre os sexos é vergonhosamente uma prática cultural
crescente e em grande parte impune na Paraíba desde o início dos anos 1980. Basta lembrar os casos mais antigos como da
poetisa Violeta Formiga e um dos mais recentes como de Aryane Thaís Carneiro e
das mulheres de Queimadas, estupradas, assassinadas e jogadas nas ruas da
cidade. Triste também foi perceber, ainda que em ano eleitoral, a falta de
agenciamento e debate político sobre o enfretamento desta questão por parte de
candidatos às prefeituras, câmara de vereadores demonstra a falta de interesse
também dos partidos e agentes políticos.
A percepção do
assassinato de mulheres, divulgado como crime passional nos jornais, causa
desconforto. Não só pelo sensacionalismo adotado na cobertura por parte de
alguns veículos de comunicação. Mas pelo campo de significação e de atribuições
constituídas em torno da narrativa jornalística sobre essa pauta. No caso da
notícia do assassinato de Brígidda foi veiculado na imprensa local que o
suspeito do assassinato havia, em contato telefônico com a mãe da vítima,
declarado ter “feito uma besteira”. Parece-nos ser esse sentido inacreditável,
uma vez que, o dicionário nos aponta para o sentido de besteira como coisa ou
quantia insignificante. Diferentemente do que de fato ocorreu, ou seja, um
crime, que, segundo o conceito formal é “uma violação culpável da lei penal,
delito”.
Lamentavelmente o atributo de besteira colocado como um dos
enquadramentos descritos na narrativa do crime pela imprensa ao narrar este
acontecimento nos instiga a pensar que, diferentemente dos assassinatos
provocados pela violência urbana, os crimes contra mulheres compreendidos como
violência de gênero são encarados por uma parte significativa da sociedade e/ou
pelo poder público como pouco ou nada relevante, resultando de certo modo numa
ação de alinhamento. Uma ação de alinhamento é qualquer comportamento que
indica a outras pessoas a aceitação da definição particular de uma dada situação
(Goffman,1995). Diferentemente de uma situação de realinhamento, na qual emerge
uma tentativa de mudar a definição da situação.
Sob nosso ponto de vista uma narrativa sensacionalista e/ou
conservadora sobre crimes contra mulheres pode refletir ou produzir no
imaginário da população um alinhamento social com um sentido de conformidade
com a violação do direito das mulheres à vida. O acontecimento irrompe na
mídia, tendo forte presença na hierarquização das pautas, entretanto, posteriormente
sai do topo rumo a um curso decrescente, obtendo em alguns casos tratamento
banalizado e mercantil, numa ritualização da violência, muitas vezes mascarada por
uma espécie de tribunal midiático.
O sensacionalismo e a invisibilidade mostram por sua vez um
comportamento bipolar no tratamento jornalístico sobre a violência contra
mulheres, felizmente percebido por algumas instituições, agentes públicos e
poucos profissionais de imprensa como violência de gênero.
Na ocasião da cobertura do assassinato da professora
Brígida Roseli de Azevêdo teve ainda grande relevância à ampliação da pauta por
poucos veículos que trouxeram um serviço de informação de qualidade, ao mostrar
o ciclo da violência doméstica, a Espiral da Violência, de forma pedagógica,
para que vítimas e/ou leitores pudessem compreender quão importante e complexo
é esse problema na sociedade brasileira. Um crime no contexto da violência
doméstica e de gênero é um estopim que desvela, torna público uma situação pré-existe
no interior de uma família, independente de sua classe social, e uma prática
social perversa de subjugo e violação de um indivíduo por sua condição de
gênero.
Quando a violência contra mulheres passa a ser compreendida
como uma violência de gênero, uma injustiça social, da qual o Estado precisa
tomar parte, e uma cultura sexista precisa ser superada, consegue-se avançar
alguns passos no que Nancy Fraser(2012) enfatiza como redistribuição corretiva
e redistribuição transformadora, enquanto concepção universalista do
reconhecimento, ou seja, a igualdade moral das pessoas. Rumo a uma comunicação
cidadã e a preservação da vida de todos, quer seja mulheres ou homens.
[i]
Esse texto é dedicado à memória da professora Briggida Roselí de Azevêdo e aos
colegas jornalistas Mabel Dias, Edileide Vilaça, padre Albeni Galdino e
Eripetson Lucena.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
72 Anos
| Foto: Carlos Azevêdo |
Há quase nove anos me “deixou”. Estive 63 anos ao seu lado. Mas a verdade é que me pego às vezes pensando e noutras sonhando e percebo sua presença. Em fevereiro completaria 72 anos, e esse ano imaginei como estaria essa mulher hoje: mantendo, talvez, os mesmos rituais. As plantas, às 5h da manhã, cuidando. As idas ao mercado, o café-da-manhã. As pausas para os desenhos animados. Como o casamento e a maternidade tiraram sua infância, ela a recuperou na década de 80, assistindo a desenhos animados na TV. Amava HQ’s, lia a Turma da Mônica, compreendia Dragon Ball – até hoje eu não consigo entender nada desse desenho. Não perdia o desenho um episódio de Sakura. Não era meu avesso, nem como espelho, eu era o seu reflexo. Das tantas coisas que fomos juntas conseguimos uma proeza: a cumplicidade de uma amizade.
O cochilo após o almoço, o terço (até entre as partidas de vôlei da Seleção Brasileira), o tempero de seus poucos pratos. Manteria penso, as reclamações cotidianas e os risos, o bom humor pelo qual sempre é relembrada nas rodas de conversa da família.
Apesar da “ausência” física, eu a reencontro vez por outra quando consigo tecer o fio da sutil perenidade dos afetos que não nos abandonam jamais. Ah, ela rezava para a Lua Nova, sempre. Então nesses seus 72 anos a vi representada numa Estrela Dalva, que num entardecer de fevereiro enluarado estava juntinho à Lua Nova, entre os coqueiros de Tabatinga. Sabia que no Sagrado ela estaria celebrando aquele momento. Escutei seu sorriso vindo com as ondas daquele mar. Fiquei em silêncio profundo. E guardando a mesma cumplicidade pude seguir adiante...
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Mais de dez coisas que amo em Campina Grande
A Rua da Floresta (para muitos rua Coronel João Lourenço Porto)
Comprar flores em dona Elisabeth(na Feira Central)
O caldo de mocotó (do Bar do Mocotó)
Ver Dona Irá(minha ex-vizinha na Rua Indepêndência)
Tomar suco de laranja com mamão em Henrique Lanches(Calçadão)
O bode com cuscuz( Bar do Cuscuz)
O pôr-do-sol visto no Açude Velho (entre o Monumento aos Tropeiros)
Um banho de chuva torrencial no Parque da Criança (inesquecível...)
Nadar.
Marinez(in memoriam) e sua linda voz
Ir ao Festival de Inverno.
Dar milho aos pombos na Praça da Bandeira.
As escolas Pequeno Príncipe e Motiva.
O Restaurante Govinda e meus amigos do Hare-Krisna
O pôr-do- sol visto do Edifício Rique.
O amanhecer visto do Edificio Palomo num dia claro de verão
O amanhecer com neblina
Ir a Feira Agroecológica, no Museu do Algodão
As residências floridas nos bairros
A vista panorâmica da Ladeira da Bela Vista...
Campina Grande pra mim existe em vários tempos, períodos da minha vida. Das tantas vezes que habitei a cidade ao longo de 13 anos de retorno à Paraíba, e nos tempos em que a cidade me habitou, marcando passagens de minha existência, estruturando sentidos nos meus ciclos de morte-vida-ressurreição.
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| Foto: Carlos Azevêdo. Vista Panorâmica do Ed.Villemus. |
A todos os meus amigos e amigas de Campina Grande, em especial, Nerize Ramos, Dôra Dantas e Tonico(Antonio Carlos Pires de Melo).
sábado, 10 de setembro de 2011
Vidas em fast-food
Dia 05 de agosto passado, saí com meu filho, sendo feriado, fomos ao cinema. Amo cinema, mas tenho dificuldades em ir às salas que ficam nos shoppings, é difícil acostumar, por inúmeras razões. Mas enfim, sempre topo ir ver um filme. Logo após a exibição ele me pede um lanche. Num ritmo frenético, jovens moças e rapazes correm de um lado para o outro num espaço mínimo, as pessoas nas filas aguardam, em tempo record, sua refeição.
A rotina foi quebrada com o grito de um jovem no fundo da cozinha, visível a todos. Pede ajuda! Rapidamente a moça do caixa sai em prantos. A imagem em segundo plano mostra um jovem estirado ao chão, como uma paisagem desfocada. Todos os jovens trabalhadores se agitam para tentar socorrê-lo, mas em questão de segundos como em robôs numa linha de montagem começam trabalhar, fazendo os mesmos movimentos. Com rostos assustados, silenciados, orquestram as vidas em fast-food.
Os bombeiros chegam, pegam o rapaz, o retiram dali numa cadeira de rodas. Questão de não mais que dez minutos dura esta lastimável cena. Eu e meu filho que estávamos bem de frente observamos tudo. Vi seu rosto pálido, tive medo que morresse, tive susto e tristeza.
Perguntei a vários jovens trabalhadores da lanchonete que juntamente comigo presenciaram a cena o que havia acontecido com ele, como estava agora, mas nenhum deles, mesmos os que saíram de seus postos para acudí-lo disseram não saberem de nada, desconversaram.
Meu filho e eu nos entreolhamos, compreendemos mais essa vez a vida invisível e descartável, existências em fast-food, expressão da coisificação de tudo e de todos. Com tristeza pela violência também sofrida pelos jovens que continuaram trabalhando sem dar uma pausa, mínima que fosse para se acalmarem diante do tudo aquilo.
Perdemos o apetite, e prometemos para nós mesmos nunca mais voltarmos aquele lugar.
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