segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Exposição Feiras do Semiárido

    Acontece na manhã dessa terça-feira, 24, véspera de Natal, a Exposição Fotográfica Feiras do Semiárido, que apresenta o trabalho dos fotógrafos Carlos Azevêdo, Roberta Ramos e Sandra Raquew Azevêdo. A exposição será aberta durante a Feira Agroecológica realizada no Museu do Algodão, a partir das 6h, em Campina Grande. O Museu do Algodão fica situado à Rua Benjamin Constant, próximo ao Açude Velho.
    O trabalho é o resultado de um registro etnográfico nas feiras de produtos orgânicos organizadas por agricultoras e agricultores do Pólo Sindical da Borborema, nos municípios de Campina Grande e Lagoa Seca.                Durante dois anos os fotógrafos fizeram o registro do cotidiano dos agricultores, especialmente das mulheres rurais, nas feiras e em suas propriedades como parte integrante do projeto de pesquisa sobre a participação feminina no mercado de produtos orgânicos, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq.
Foto: Sandra Raquew Azevêdo
   As fotografias podem ser apreciadas por agricultores e consumidores da Feira durante mais um aniversário da Campanha Natal sem Veneno, que teve início em 2003, como marco inaugural do acesso dos agricultores familiares aos mercados de produtos orgânicos na Paraíba. O trabalho do Pólo Sindical da Borborema teve início em 1996, de acordo com Diógenes Chaves, técnico da entidade, no intuito consolidar dinâmicas de experimentação e intercambio na agricultura familiar voltados à produção agroecológica.
    Atualmente a entidade está à frente da realização de oito feiras, nos municípios de Campina Grande, Lagoa Seca, Esperança, Massaranduba, Alagoa Nova, Remígio e Solânea, envolvendo a produção e comercialização de produtos orgânicos de cerca de 120 agricultores familiares de 16 municípios da região do Agreste da Borborema.

Sobre os fotógrafos - Carlos Azevêdo é jornalista, docente do DECOM-UFPB e ganhador do Lambe-Lambe Novos Talentos da Fotografia Paraibana pela Agência Ensaio. Roberta Ramos é estudante de Comunicação Social, da UFCG e educomunciadora. E Sandra Raquew Azevêdo é jornalista, docente de jornalismo na UFPB e realiza pesquisas com o apoio do CNPq. Já participou das Mostras Fotográficas Lambe-Lambe Novos Talentos da Fotografia Paraibana, Mulheres Fotógrafas - panorama da fotografia brasileira produzida na Parahyba e Etnografias do Invisível (Coletivo Conspirando, Santiago do Chile).

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ser-tão

Rumo à Cidade do Sol. Foto: Sandra Raquew Azevêdo

Celebro hoje o aniversário da minha cidade natal, Patos. Não tenho como esquecer, porque, de sobressalto, menstruei no mesmo dia do aniversário da cidade, décadas atrás. E essa travessia me fez fixar a data num ciclo que se repete. Compasso de tantas estações.
Não guardo ufanismos em torno desse lugar de origem, mas sei do muito que levo que se vincula profundamente a esse espaço. Migrei como tantas pessoas de minha geração. A migração, segundo o romance histórico, Malinche, é um ato de sobrevivência...

Patos, essa cidade como um rio, me atravessa. Cheguei e parti infinitas vezes, sempre diferente. Perdi pessoas insubstituíveis, mantive meus laços mais primitivos, e arrastei comigo um modo de ver a mim mesma e o mundo, diverso, como um fragmento desse lugar. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

As guerras não são apenas notícias...

Foto: Carlos Azevêdo. Chapada dos Guimarães, 2011.
Parece tão óbvio isso. Há dias um desconforto me ronda. Angustia provocada por uma foto produzida em meio às mortes na Síria, nas últimas semanas. Crianças mortas, tantas... Imensurável dor. Fiquei pensando no “silêncio” das notícias nas páginas de revistas e jornais. No continuum de mortes cotidianas, em diferentes lugares do Planeta... Nessa saturação de imagens de guerras...
As notícias desorientam, anestesiam muitas vezes. Consumimos informação quase em tempo integral, real, tão tudo, ao mesmo tempo-agora que talvez estejamos rompendo com algo relevante para a produção social das notícias: um tempo para pensar sobre elas; a hierarquia dos acontecimentos talvez...
Não é possível, penso, conciliar a imagem das crianças mortas na Síria com a saturação de imagens nas telas de computadores, TVs, redes sociais, incluindo no mesmo tempo-espaço o entretenimento, a piada do momento, o meme, as denúncias contra corrupção, a cobertura do Mensalão, a vinda dos médicos estrangeiros para o Brasil, os novos vídeos de humor no youtube ... as fotografias das comidas que digerimos como se fossem uma mesma pauta.
É muito particular o que digo: mas me senti tão assustada povoada com os rostos das crianças forçadas a deixar seu lugar, sua vida. E fiquei me questionando sobre o que nos faz acreditar que superamos a barbárie e a banalidade do século passado, ou ainda pensar que num mundo globalizado as guerras são setoriais? E crer que só a “Liga da Justiça” dos países desenvolvidos é capaz de promover a paz.
Talvez tenhamos entrado no Século XXI sob o signo do terror da inconsciência, inconsistência, ou num autismo voluntário, não sei... Sinto que dói e assusta, desestabiliza o que resta de humano.

Por fim, essa semana, durante o apagão no Nordeste me surpreendi com o clima de “terror”, me senti num daqueles filmes apocalípticos, lembrei de Orson Wells, na Guerra dos Mundos. Porque era uma agonia generalizada nas ruas da cidade de João Pessoa, no trânsito. Embora o mar estivesse lindo, embora o apagão também fosse uma oportunidade de voltar ao ciclo do tempo natural, nos sentíamos perdidos, desamparados sem o signo da luz elétrica, formigas atônitas. Lembrei nesse interstício da ausência de luz no sertão da infância, no luar, nas estrelas, nas pessoas conversando à luz de velas e lamparinas, lembrei das histórias, dos nossos mitos. E quis esquecer o mundo e voltar à Caverna de Platão.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Mulheres Poemas...

Escrever é um ato de coragem, e um pouco de loucura. Me refiro a atitude consciente de buscar nas palavras uma forma de transcendência, política e expressão. Nas últimas décadas muitas das coisas que fiz vinculam-se a escrita, mas pelo caráter ainda sisudo das ciências, acabei por entre teses, dissertações e artigos acadêmicos vivendo, de certa maneira, um hiato - grande, porque não dizer – entre outras formas de narrar.
Entretanto foi na observação de algumas mulheres poemas que povoam meu cotidiano e imaginário que pude outra vez sentir o gosto, o desejo, de voltar a experimentar o texto, a partir de um espaço íntimo, sagrado e criativo

Irmã Agostinha Vieira de Melo(do bairro de Mandacarú), Ana Coutinho de Sales, Ana Adelaide Peixoto, Eliane Brum, Mary Judy Ress, Cicilia Peruzzo e Vitória Lima. Mulheres com diversos marcadores de diferenças entre si... e próximas por sua identidade, intimidade, autonomia, consciência e liberdade na busca diária por dizer algumas palavras. Fazendo de seus textos espaços de mediação, de vinculo social, memória, sobrevivência, transgressão, arte, restauração.
De um modo muito particular as linhas imaginárias e a tessitura dessas escritas femininas-feministas me tocaram ao longo desse último ano que marcou a entrada na Idade da Loba, num contexto no qual era necessário “cantar sobre ossos secos”, assim como La Loba, de Clarice Pinkola Estés . E retomar uma metáfora bíblica do texto de Ezequiel, em que num vale de ossos secos se vê literalmente brotar à vida, e cuja descrição assustadora e inteligente tanto poderia servir de inspiração ao George Lucas, quanto mostrar que a escuta e a descoberta das palavras que fazem sentido podem fazer renascer.

Essas mulheres sopram encantadoramente sua esperança em contextos difíceis, em solos áridos num mundo que parece às vezes desnorteado pelo excesso de verbos-imagens e ausência de sujeitos-humanos. Algumas escrevem poemas secretamente e escutam horas sem fim mistérios e sonhos de andarilhos que batem às suas portas ou que encontram nas ruas, na vida; outras provocam mulheres mundo a fora para reescrever sua própria história e falar desse tempo presente.
Às vezes elas moldam e refazem suas dores e perdas soprando suas palavras-chave como verdadeiros cristais. Elas acreditam e se deslocam de suas zonas de conforto, em direção “ao mais humano, a mais amor por tudo”.
Sei que no encontro com o silencio, a escuta, a leitura da narrativa dessas mulheres me descubro um pouco mais e sinto suas escritas como dádivas, assim como celebro o encontro das Águas (chuvas) e Terra, por tornar as estações fecundas.
Foto de Ícaro Azevedo,
escultura do artista paraibano Chico Ferreira

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Crime ou besteira?[i]



Sandra Raquew dos Santos Azevêdo.

Último dia 19, numa terça-feira, o homicídio da professora universitária Bríggida Roseli de Azevêdo, 28 anos, pautou os principais meios de comunicação do Estado. A professora foi assassinada dentro de casa, conforme a imprensa, com sinais de asfixia por estrangulamento. Por se tratar de uma ocorrência que envolvia um suspeito advindo de família tida como tradicional na sociedade paraibana, o evento noticiável adquire, conforme discute a socióloga Eva Blay(2004), maior notoriedade no agendamento midiático.
O que nos alertou na cobertura sobre a violência contra mulher, não foi a constatação de como os assassinatos femininos resultantes das desigualdades de poder entre os sexos é vergonhosamente uma prática cultural crescente e em grande parte impune na Paraíba desde o início dos anos 1980.  Basta lembrar os casos mais antigos como da poetisa Violeta Formiga e um dos mais recentes como de Aryane Thaís Carneiro e das mulheres de Queimadas, estupradas, assassinadas e jogadas nas ruas da cidade. Triste também foi perceber, ainda que em ano eleitoral, a falta de agenciamento e debate político sobre o enfretamento desta questão por parte de candidatos às prefeituras, câmara de vereadores demonstra a falta de interesse também dos partidos e agentes políticos.  
 A percepção do assassinato de mulheres, divulgado como crime passional nos jornais, causa desconforto. Não só pelo sensacionalismo adotado na cobertura por parte de alguns veículos de comunicação. Mas pelo campo de significação e de atribuições constituídas em torno da narrativa jornalística sobre essa pauta. No caso da notícia do assassinato de Brígidda foi veiculado na imprensa local que o suspeito do assassinato havia, em contato telefônico com a mãe da vítima, declarado ter “feito uma besteira”. Parece-nos ser esse sentido inacreditável, uma vez que, o dicionário nos aponta para o sentido de besteira como coisa ou quantia insignificante. Diferentemente do que de fato ocorreu, ou seja, um crime, que, segundo o conceito formal é “uma violação culpável da lei penal, delito”.
Lamentavelmente o atributo de besteira colocado como um dos enquadramentos descritos na narrativa do crime pela imprensa ao narrar este acontecimento nos instiga a pensar que, diferentemente dos assassinatos provocados pela violência urbana, os crimes contra mulheres compreendidos como violência de gênero são encarados por uma parte significativa da sociedade e/ou pelo poder público como pouco ou nada relevante, resultando de certo modo numa ação de alinhamento. Uma ação de alinhamento é qualquer comportamento que indica a outras pessoas a aceitação da definição particular de uma dada situação (Goffman,1995). Diferentemente de uma situação de realinhamento, na qual emerge uma tentativa de mudar a definição da situação.
Sob nosso ponto de vista uma narrativa sensacionalista e/ou conservadora sobre crimes contra mulheres pode refletir ou produzir no imaginário da população um alinhamento social com um sentido de conformidade com a violação do direito das mulheres à vida. O acontecimento irrompe na mídia, tendo forte presença na hierarquização das pautas, entretanto, posteriormente sai do topo rumo a um curso decrescente, obtendo em alguns casos tratamento banalizado e mercantil, numa ritualização da violência, muitas vezes mascarada por uma espécie de tribunal midiático.  
O sensacionalismo e a invisibilidade mostram por sua vez um comportamento bipolar no tratamento jornalístico sobre a violência contra mulheres, felizmente percebido por algumas instituições, agentes públicos e poucos profissionais de imprensa como violência de gênero.
Na ocasião da cobertura do assassinato da professora Brígida Roseli de Azevêdo teve ainda grande relevância à ampliação da pauta por poucos veículos que trouxeram um serviço de informação de qualidade, ao mostrar o ciclo da violência doméstica, a Espiral da Violência, de forma pedagógica, para que vítimas e/ou leitores pudessem compreender quão importante e complexo é esse problema na sociedade brasileira. Um crime no contexto da violência doméstica e de gênero é um estopim que desvela, torna público uma situação pré-existe no interior de uma família, independente de sua classe social, e uma prática social perversa de subjugo e violação de um indivíduo por sua condição de gênero.
Quando a violência contra mulheres passa a ser compreendida como uma violência de gênero, uma injustiça social, da qual o Estado precisa tomar parte, e uma cultura sexista precisa ser superada, consegue-se avançar alguns passos no que Nancy Fraser(2012) enfatiza como redistribuição corretiva e redistribuição transformadora, enquanto concepção universalista do reconhecimento, ou seja, a igualdade moral das pessoas. Rumo a uma comunicação cidadã e a preservação da vida de todos, quer seja mulheres ou homens.




[i] Esse texto é dedicado à memória da professora Briggida Roselí de Azevêdo e aos colegas jornalistas Mabel Dias, Edileide Vilaça, padre Albeni Galdino e Eripetson Lucena.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

72 Anos

Foto: Carlos Azevêdo

Há quase nove anos me “deixou”. Estive 63 anos ao seu lado. Mas a verdade é que me pego às vezes pensando e noutras sonhando e percebo sua presença. Em fevereiro completaria 72 anos, e esse ano imaginei como estaria essa mulher hoje: mantendo, talvez, os mesmos rituais. As plantas, às 5h da manhã, cuidando. As idas ao mercado, o café-da-manhã. As pausas para os desenhos animados. Como o casamento e a maternidade tiraram sua infância, ela a recuperou na década de 80, assistindo a desenhos animados na TV. Amava HQ’s, lia a Turma da Mônica, compreendia Dragon Ball – até hoje eu não consigo entender nada desse desenho. Não perdia o desenho um episódio de Sakura. Não era meu avesso, nem como espelho, eu era o seu reflexo. Das tantas coisas que fomos juntas conseguimos uma proeza: a cumplicidade de uma amizade.
O cochilo após o almoço, o terço (até entre as partidas de vôlei da Seleção Brasileira), o tempero de seus poucos pratos. Manteria penso, as reclamações cotidianas e os risos, o bom humor pelo qual sempre é relembrada nas rodas de conversa da família.
Apesar da “ausência” física, eu a reencontro vez por outra quando consigo tecer o fio da sutil perenidade dos afetos que não nos abandonam jamais.  Ah, ela rezava para a Lua Nova, sempre. Então nesses seus 72 anos a vi representada numa Estrela Dalva, que num entardecer de fevereiro enluarado estava juntinho à Lua Nova, entre os coqueiros de Tabatinga. Sabia que no Sagrado ela estaria celebrando aquele momento. Escutei seu sorriso vindo com as ondas daquele mar. Fiquei em silêncio profundo. E guardando a mesma cumplicidade pude seguir adiante...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mais de dez coisas que amo em Campina Grande


A Rua da Floresta (para muitos rua Coronel João Lourenço Porto)
Comprar flores em dona Elisabeth(na Feira Central)
O caldo de mocotó (do Bar do Mocotó)
Ver Dona Irá(minha ex-vizinha na Rua Indepêndência)
Tomar suco de laranja com mamão em Henrique Lanches(Calçadão)
O bode com cuscuz( Bar do Cuscuz)
O pôr-do-sol visto no Açude Velho (entre o Monumento aos Tropeiros)
Um banho de chuva torrencial no Parque da Criança (inesquecível...)
Nadar.
Marinez(in memoriam) e sua linda voz
Ir ao Festival de Inverno.
Dar milho aos pombos na Praça da Bandeira.
As escolas Pequeno Príncipe e Motiva.
O Restaurante Govinda e meus amigos do Hare-Krisna
O pôr-do- sol visto do Edifício Rique.
O amanhecer visto do Edificio Palomo num dia claro de verão
O amanhecer com neblina
Ir a Feira Agroecológica, no Museu do Algodão
As residências floridas nos bairros
A vista panorâmica da Ladeira da Bela Vista...

Campina Grande pra mim existe em vários tempos, períodos da minha vida. Das tantas vezes que habitei a cidade ao longo de 13 anos de retorno à Paraíba, e nos tempos em que a cidade me habitou, marcando passagens de minha existência, estruturando sentidos nos meus ciclos de morte-vida-ressurreição.
                                
Foto: Carlos Azevêdo. Vista Panorâmica do Ed.Villemus.
A todos os meus amigos e amigas de Campina Grande, em especial, Nerize Ramos, Dôra Dantas e Tonico(Antonio Carlos Pires de Melo).