terça-feira, 22 de junho de 2010

Saramago

Quando Saramago morreu tive um sentimento, penso que compartilhado por muitos, de que se vai um pouco da humanidade, do humanismo, da tradução da capacidade de transcendência de um ateu, mais crente na Vida do que muitos confessos.
 

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Silêncio

Há dias em que a vida parece um grande hiato.
E também existem momentos em que a gente se sente num escrito de Kafka, no Castelo.
Percebo que às vezes as pessoas clamam por si mesmas sileciosamente mas sem muito êxito, perdidas no nada.

sábado, 13 de março de 2010

Uma vida sem violência é um direito nosso

Mesmo diante das inúmeras campanhas, a gente se depara com notícias deste tipo, como a que vocês vão ler abaixo, extraída do Blog A Musa Sem Máscara. Os crimes contra mulheres não expressam apenas dramas individualizados, mas revelam, como uma fratura exposta, uma tragédia social ainda tão presente em nosso cotidiano, o padrão cultural de matar mulheres.  

"Companheiras e companheiros é com muita tristeza e pesar que informamos a todas e todas  militantes e dirigentes  amigos e amigas do MST, que  hoje a  tarde foi assassinada a companheira Luiza. Uma das mais combatentes e aguerridas dirigentes do MST, membro da direção estadual de Pernambuco e  coordenadora da regional Mata Norte.
Luiza Ferreira, 52 anos, mãe de 05 filhos e avó de 7 netos, foi assassinada, quando realizava uma assembléia no assentamento Margarida Alves, no Município de Aliança, onde era assentada. O assassino, foi seu ex companheiro (Pelé) durante 8 anos. Depois de cometer o assassinato se suicidou no mesmo local. O crime passional ocorreu por ciúmes da ex-companheira e porque impôs a companheira Luiza, no inicio deste ano, quando ela foi convocada pelas bases e pelos militantes da região para que assumisse a coordenação da regional do MST. Diante da imposição: Que optasse entre a tarefa política da direção do MST ou o casamento. Ela optou pela tarefa política, que infelizmente custou a sua vida". (Extraído do Blog A musa sem máscara,13/03/2010. http://musasemmascara.blogspot.com - Maria Áurea Santa Cruz)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Adeus Glauco

 Hoje fui surpreendida pela infeliz notícia da morte do  cartunista Glauco Villas Boas e seu filho Raoni Villas Boas. Fiquei triste pela forma banal como as pessoas morrem. Ontem meu filho fazendo a atividade
da escola me dizia que para ele o paraíso era um mundo sem violência. E hoje fico sabendo de mais uma dessas... Que perdurem esta irreverência semeada por ele, o humor, a crítica social, a capacidade em dizer não as injustiças e a atitude de respeitar e preservar a dignidade humana.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Feminicídio durante o Carnaval

“Morta por ciúmes”. “Sob cárcere privado por terminar um relacionamento”. “Perdeu parte da genitália em tentativa de estupro”. Estes enunciados foram retirados de três notícias que me deparei durante o Agendamento da Semana de Carnaval na mídia. Sem tanta repercussão, mesmo diante da dramaticidade dos fatos, estes acontecimentos são cada vez mais sintomáticos em relação ao aumento dos números da violência contra mulheres no País, e também na Paraíba.




Mesmo considerando o avanço tremendo da Lei Maria da Penha, em vigor desde 2006, as narrativas cotidianas das páginas dos jornais assustam, porque evidenciam a virulência com que os casos têm ocorrido, e mais que isto, tem deixado uma lacuna enorme quanto à ação do Poder Público, incluso o Judiciário na coibição destes episódios.


Muitas vezes o que fica é um sentimento de impotência, que talvez fosse minimizado se houvesse uma resposta mais efetiva da ação governamental disseminada com maiores desdobramentos nos Estados com foco em medidas eficientes no enfrentamento à violência de gênero, que tanto quanto a violência urbana tem características específicas e é um problema social grave a ser enfrentado.


O que temos visto com a ampliação do fenômeno da violência contra mulheres é um contexto de feminicídio, em que meninas, adolescentes e mulheres adultas quando não morrem, são usurpadas do seu direito a estar no mundo com segurança, liberdade e dignidade humana.


É difícil imaginar, em pleno Século XXI, que uma mulher pela recusa em atender aos apelos sexuais de seu marido, tenha sido por ele estuprada e perdido parte de sua genitália num ato de agressão. Este grotesco episódio que ocorreu no Brejo Paraibano, no município de Araçagi, nos coloca mais uma vez diante de uma aberração ainda maior, que diz respeito a uma indiferença social diante desta questão.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Em memória de quem partiu, mas que nunca nos deixou


Hoje é Dia dos Mortos, Finados, dia após o Dia de Todos os Santos. É segunda-feira. Aprendi melhor sobre a finitude da vida indo ao cemitério. Foi há algum tempo atrás, na minha infância.

Era levada por minha mãe para rezar junto ao túmulo da minha avó. Era um ritual. Nestas idas e vindas à Casa dos Mortos me chamava à atenção as flores que nasciam no lugar, as borboletas, os pés de manjericão e de modo muito particular as fotografias. Amava ver as imagens, pois era como adentrar num portal em busca de um tempo que nunca me pertenceu e do qual pouco, muito pouco saberia.

Estas coisas me tiravam o temor em observar as Casas Desabitadas que eram os mausoléus. Apesar dos momentos solenes da oração, do silêncio das lágrimas saudosas, havia também a possibilidade de brincar no labirinto entre as covas, correr no Cemitério, brincar de esconde-esconde.

Quando a infância por mim passou deixei de correr nestes labirintos, mas sobraram os momentos solenes de oração e lágrimas saudosas, permaneceram as imagens imortais e também o sentido sobre a vida e morte.

Ao assistir Volver, filme do Almodóvar, reencontrei-me com este momentos do meu jardim secreto de memórias e quando li sobre a vida de Frida Kahlo compreendi melhor porque o Dia de Finados era, apesar da morte, tão divertido. Quer no México ou em Patos, sertão da Paraíba, permanecia de certo modo, no inconsciente coletivo, a percepção de que morte e vida não são assim tão irreconciliáveis.

E o Dia de Finados, afinal, era um momento de preciosos encontros: entre pessoas de um mesmo lugar, de gente que há muito tempo não se via, entre desconhecidos, amigos, inimizades (onde o perdão tornava-se até algo possível), amores... dia de compartilhar o pão, momento de multiplicar-se.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Contrato com Deus



Li recentemente Will Eisner,uma clássica obra em HQ, reeditada por Devir Quadrinhos e comprada na Banca do Farias. Depois de escrever uma tese precisava me purificar. Primeiro veio Mundo Pet, do Lourenço Mutarelli, irresistível. Logo após veio a graphic novel do Eisner. A história que dá título a coletânea, Contrato com Deus (lançada em 1978, e contendo quatro histórias sobre a vida no Bronx dos anos 30), me habitou, e ainda estou com ela, guardada em um lugar secreto que nem sei se ouso tocar com tamanha intensidade com a qual o autor a construiu a partir de si mesmo e seu diálogo/conflito com o Divino.

A leitura voraz dos quadrinhos de Eisner revitalizaram a memória dos inúmeros contratos invisíveis construídos com o Sagrado ao longo dos meus dias, feitos à revelia dos corretores imobiliários da fé. Contratos muitas vezes sem palavras, ou papiro... Uns fiz ao vento, muitas vezes sentindo-me a mais especial das criaturas, outros no entanto, no subterrâneo, balbuciando, na tentativa de encontrar as asas ou os fios que me tirassem de alguns labirintos.

Na paisagem urbana de um cortiço, onde o que mais parece estar em evidência é a condição humana, Eisner desenha brilhantemente becos, personagens multiculturais, situações “fictícias” de mundos reais, demonstrando como um microcosmo pode ser expressão de questões tão universais como as perdas, a solidão, a solidariedade, o velho e o novo, a finitude e o renascimento. No cortiço descrito por ele o Sagrado deixa seus sinais nos umbrais das portas tal qual no Velho Testamento. Os personagens parecem bodes expiatórios de uma sociedade messiânica. Lembrei muito dos estigmatizados descritos por Goffman, inevitável.

Confesso que esta leitura está em aberto. De fato Eisner com sua genialidade e traços marcantes nos ajuda um pouco a rasgar o véu dos templos ...