terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Reengenharia do tempo em O curioso caso de Benjamin Button



Tomo emprestado o título do belíssimo livro da Rosiska Darcy de Oliveira(publicado pela Rocco, 2003) para comentar o filme O curioso caso de Benjamin Button, dirigido por David Fincher. Para além de contar uma história de amor, o drama baseado num escrito de F. Scott Fitzgerald, cujo roteiro é de autoria de Eric Roth nos fala sobre o tempo como metáfora da condição humana.
A fotografia do filme fortemente marcada pelas cores sépia e azul são referências marcantes nas cenas, em que cada momento possui uma matiz simbólica própria, que associados ao nascimento e ao por do sol nos remetem a aliança entre vida e morte tão fortemente presente nos ciclos da natureza e representados na película. A história do homem que nasce sendo velho e morre ao rejuvenescer narra a capacidade humana de constante construção e reconstrução de sua própria história. Na vida de Benjamim Button nada parece estar tão ao acaso, sequer o “destino”.
Inteligentemente diretor e roteirista teceram esta adaptação com foco não apenas no amor entre os protagonistas( Brad Pitt e Cate Blanchett), que atuam brilhantemente, mas também em confronto com os fatos históricos que marcaram o século XX e XXI, especialmente mostrando as guerras e os prenúncios do Furacão Katrina que em agosto de 2005 deixou mais de mil e oitocentos mortos, denunciando assim a violência instituicional que paira sobre todos nós.
O relógio girando ao contrário, o envelhecer como nascimento, a morte sem sentido através das guerras e do descaso com a vida, a arte como espiritualidade e ethos, a fluidez e mobilidade das relações amorosas como parte da vida, a ruptura com as normatizações em torno dos afetos, os abandonos e a solidariedade, a humanização do ato de morrer são alguns dos aspectos presentes na reinvenção do cotidiano presente nesta narrativa.
Ainda no filme, a estação do trem e as águas são representações importantes da mobilidade humana que não perde a capacidade de surpreender, e mesmo para quem se propõe ficar no mesmo lugar não passa imune ao ser confrontado à realidade de que na vida como na morte há aspectos da passagem humana que não se pode represar.
O Curioso Caso de Benjamin Button é uma oportunidade quer seja de lazer e entretenimento apenas, quer seja de uma busca silenciosa para os que tem fome de alma(anima). É um filme que traz alianças e rupturas, risos e lágrimas, errância e permanência, sombra e claridade, vida e morte não como uma dialética raivosa, mas como expressão da multidimensionalidade da condição humana. A cronologia as avessas do filme é embalada pela musicalidade ímpar do jazz e blues, pela singularidade artistica de Nova Orleans.

Sandra Raquew dos Santos Azevêdo é jornalista e autora dos livros Cartografias. Escritos sobre mídia, cultura e sociedade e Gênero, rádio e educomunicação: caminhos entrelaçados(ambos pela Editora da UFPB).

domingo, 28 de dezembro de 2008

Dois dias em Paris


Sempre gostei da Julie Delpy, protagonista de Antes do Amanhecer. Mesmo não a vendo constantemente nas películas, passei a apreciar os roteiros construídos por ela e seus parceiros, como o Ethan Hawke. O que me toca nos neles é esta capacidade de não ser panfletária e tratar idéias e sentimentos de modo inteligente.
Ser panfletário é uma chatice, e quase todos nós o somos, alguns mais outros menos. Alguns podem até achar que são austeros, ou que firmeza na afirmação de idéias próprias tem a ver com individuação, personalidade, autenticidade. Na verdade, ter sempre na ponta da língua um ponto de vista definido e por vezes até definitivo, sarcástico e pseudo instruído torna-se uma incidência no vazio, é a sensação que tenho quando me deparo com o absolutismo fluido dos pensamentos conservadores e das mentes pós-modernas (que em determinados momentos parecem gêmeos).
É um prazer instantâneo, dionisíaco e fecundo poder assistir Dois dias em Paris, porque nem sempre tudo está na ponta da língua, mas nas neuroses cotidianas dos afetos e da racionalização da vida. O filme trata não de romance, drama, comédia, aventura, mas de idéias que nos povoam, de subjetividades silenciosas, de “verdades” que nem sempre podem ser ditas, de rupturas com o que seja correto e incorreto.
Quando me percebo em roteiros como estes, tudo soa muito como espelho, antropológico reflexo de tudo que vi e “ainda não vi”. E me vem uma ânsia de restituição de mim, pensando onde foi que me perdi, e nos lugares em que posso melhor me encontrar...

Sandra Raquew dos Santos Azevêdo é doutoranda em Sociologia/UFPB.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Vidas Sintéticas


Muito se discute hoje sobre as mobilidades, os fluxos, a vida líquida, os nomadismos... Há meses atrás um diálogo com meu filho me alertou para uma das experiências da modernidade tardia. Ele me pedia insistentemente um bicho de estimação, eu argumentava em sentido contrário ao seu pedido: não dá filho, moramos em apartamento. Viu que não me convencera, sentenciou: então me dá um bicho sintético. O que filho? É, se não posso um de verdade, então dá um bicho sintético? Insiste o menino. Pergunto o que é então. Um bicho virtual, responde.
Achei sem dúvida engraçado porque o sintético usado para pedir o bichinho vinha de uma outra conversa que ele escutou sobre os sucos de laranja industrializados, que vinham com gomos “naturalmente” sintéticos.
Este diálogo com uma criança me alerta para uma das nossas contradições contemporâneas: tanto mais líquidos, cada vez mais sintéticos.
Os corpos mumificados do presente, customizados sob o mesmo modelo, a estética atual não nos apresenta muitas opções. A comida sob a mesma embalagem, perdendo-se aos poucos a diversidade da cultura alimentar. O dinheiro de plástico, mesmo que não exista, mas sustenta a ilusão de poder consumir. E a vida sintética vai seguindo seu curso...
Mas o que acho mais maluco na botoxização da vida cotidiana é a plástica das relações afetivas contemporâneas. Nisto o Oswaldo Montenegro acertou em cheio quando escreveu A Lista. Faça você mesmo a sua lista de grandes amigos... A amizade é hoje um sentimento em extinção. Não temos tempo, ah e nem sempre resulta em benefício próprio, então perguntamos, vale a pena?
No lugar de fluidez e liberdade das nossas sociedades, também se esconde a faceta sutil da subordinação simbólica a qual somos enclausurados quase diariamente. Mas isto tão pouco importa se somos famosos, vips, públicos. Um minuto de fama pode resultar até na imortalidade, nem que para isto eu precise espetacularizar a morte, especialmente a dos outros.
As vidas sintéticas são até interessantes, um misto de patético e entretenimento, mas a sensação é a de que algumas coisas estão morrendo lenta e profundamente, a capacidade de sentir intensamente o lugar singelo da existência...

Sandra Raquew dos Santos Azevedo.
A Ìcaro e Carlos que não me deixam perder a poesia, e Nina (nosso animal de estimação e, de verdade) pela alegria trazida.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Cartografias. Escritos sobre mídia, cultura e sociedade.






Será lançado hoje, às 18, na Praça da Alegria, da Universidade Federal da Paraíba, o livro Cartografias. Escritos sobre mídia, cultura e sociedade, de minha autoria.A publicação é uma coletânea de ensaios sobre gênero, mídia e cultura brasileira, onde reflito sobre identidades culturais, movimentos sociais e processos midiáticos. A inspiração da temática gênero norteia alguns dos ensaios do livro onde são evidenciadas as seguintes questões: a participação das mulheres nas mídias, o diálogo inter-geracional no contexto dos movimentos feministas e a presença do ecofeminismo no campo das ciências das religiões. O livro traz ainda uma reflexão sobre hibridismo cultural a partir da cena musical no Nordeste, tomando como ponto de partida o trabalho do grupo musical pernambucano Mestre Ambrósio. Nos outros escritos que integram a publicação são discutidas as interfaces entre cultura-comunicação na sociedade contemporânea a partir das contribuições dos Estudos Culturais para a compreensão dos processos de mediatização da vida social. Por fim, o último escrito reflete a temática da morte como um processo de aprendizagem social tendo como foco a sociologia de Nobert Elias e as experiências de significação do morrer-viver no campo da teologia ecofeminista. Os ensaios são reflexos da minha trajetória como pesquisadora nas áreas de comunicação, sociologia, gênero e educação.




Sobre a autora
Sandra Raquew dos Santos Azevedo é jornalista e radialista. Mestre em Educação e Doutoranda em Sociologia (UFPB). Como pesquisadora possui trabalhos publicados nas seguintes áreas: comunicação, sociologia, gênero e educação. Já publicou por esta Editora o livro Gênero, rádio e educomunicação: caminhos entrelaçados.

sábado, 18 de outubro de 2008

Eloá. O que as mídias e os especialistas não discutem

Há menos de 24h do trágico desfecho do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel, por Lindemberg Alves, todos atônitos procuramos “compreender” via mediação dos meios de comunicação social e de especialistas da segurança pública, psicólogos, e outros, um fato presente cotidianamente no noticiário: o assassinato de mulheres.
Muitas são as explicações que tentam dar conta do comportamento do jovem, cujo perfil durante o processo de negociação fora retratado pelos meios como de um rapaz tranqüilo, trabalhador, que tinha planos para casar. “Dificuldade de lidar com as frustrações”; “comportamento passional”, “de tolerância muito baixa às frustrações”, entre outros argumentos são discutidos publicamente em jornais, sites, rádio, enfim, em todo processo de agendamento desta lamentável crônica de mais uma tragédia midiatizada.
Inúmeros aspectos deste acontecimento são ressaltados na cobertura: o lugar, os protagonistas, o tempo, amigos, imagens, os momentos de negociação, os lugares de origem de Eloá e Lindemberg, as imagens... Todavia há um aspecto a ser considerado nesta notícia, e que passa intocado na cobertura de crimes que possuem semelhança com o homicídio de Eloá, o fato de que eles se relacionam com as desigualdades de gênero. Se nos negarmos a discutir também nos noticiários esta face da violência, será muito difícil à superação de algo que pode ser considerado, lamentavelmente, um padrão cultural vigente, a prática de crimes contra as mulheres.
Um breve monitoramento de mídia permite perceber a brutalidade e reificação de crimes como estes: eles não são apenas crimes passionais, podem ser situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São de certa maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição.
Perceber os gêneros como processo de mediação do social é urgente para nos darmos conta da violência contra a mulher como um fenômeno social cujo aparecimento cotidiano nas mídias também precisa ser interpretado, refletido com e a partir dos veículos de comunicação e tendo como foco o papel social dos profissionais de imprensa.
A motivação de Lindemberg em manter seqüestrada Eloá e tentar por fim a vida da jovem se inter-relaciona com outros fatos conhecidos da sociedade brasileira, como os assassinatos de Ângela Diniz, Sandra Gominde, Daniela Perez, e ainda de inúmeros casos de violência e homicídios femininos que são noticiados, mas que carecem não de uma tentativa de tentar compreender o comportamento masculino, mas de questionar os valores sociais que se reproduzem nas trocas simbólicas e tecem ainda, tristemente, este predomínio do falo que oprime e extermina.
O tiro na virilha de Eloá não é só uma metáfora, mas uma expressão do ódio da tentativa frustrada de continuar mantendo o exercício do controle sobre o corpo das mulheres, por isto me sinto hoje também transpassada por esta bala.
Numa das notícias veiculadas sobre o Caso Eloá, dois personagens sobrenaturais surgiram: um anjinho e um diabinho que acompanhavam Lindemberg. Parece inacreditável, mas este recurso, muito comum entre homens que praticam violência contra as mulheres, aparece mais uma vez como uma máscara, uma performance que busca esconder o lado perverso de um imaginário social que em momentos como este é despertado pelos disparos protagonizados por um homem que representa os mecanismos simbólicos forjados socialmente e que negam cotidianamente às mulheres o seu direito a vida.


Sandra Raquew dos Santos Azevedo, jornalista.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Siba e Fuloresta do Samba


Ontem vi no Programa Ensaio, da Tv Cultura, a apresentação de Siba e Fuloresta do Samba. Não foi a primeira, e tenho por Deus que não será a última. Pois ao me deparar com a sonoridade, vitalidade e autenticidade do grupo me emociono profundamente, porque tenho um sentimento de pertença com tudo que trabalhos como este representam.
É a música e a poesia de mãos dadas, viva, falando do cotidiano, de gente, de humor, de existência. São palavras brincantes, percussões ousadas, num ritmo que nos põe em diálogo com os ciclos da vida. É ruptura com o parnasianismo, com a poesia vitrificada dos gabinetes e com os poetas de paletó e gravata.
Além do mais acho que a experiência da Fuloresta rompe radicalmente com uma noção atrasada e sem sentido de pensar a cultura a partir da hierarquização erudito-massivo-popular.
Trabalhos musicais como os de Siba e Fuloresta, Vó Mera, Zabé da Loca, das mulheres de Caiana dos Crioulos, do memorável Mestre Gasosa, entre outros, me falam fortemente de um vínculo entre sagrado e profano, e do Eterno que nos habita.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O Guerreiro de Ão.


Embora pareça estranho, Ão não é nenhum lugar imaginário. Por ser um espaço tribal, de lá surge, quando menos se espera, guerreiros que transcendem as temporalidades de suas aldeias.
Foi assim que numa noite urbana, no ponto mais oriental das Américas, e, em pleno apagão, encontrei sob a égide da Lua, há mais de uma década, um dos filhos de Tupã, que floresceu em Ão.
Ainda curumim teve, como tantos outros indígenas da cena contemporânea, que sair de sua tribo para cumprir a saga de herói, sua jornada.
Tímido, silencioso, seu sorriso revelava a plenitude de sua inocência e sua maneira ímpar de trazer resposta sem balbuciar sequer uma só palavra. Isto sempre me surpreendeu nele: cordeiro mudo.
Para crescer não se deixou amedontrar pelos ritos de iniciação, acompanhei alguns deles, ora de mãos dadas, ora à distância, os hiatos do espaço-tempo não foram empecilho para acompanhar sua trajetória de guerreiro-menino, “com a saga de seu tempo por sobre seus ombros”.
Este guerreiro de Ão, diferente de todos os que existiram até os dias de hoje, possuía um arco e flecha apontados para dentro de sí mesmo, e era deste lugar sangrento que ele extraia muitas cores e traços, objetos mágicos e de desejo humano e sagrado.
O guerreiro de Ão era artista, com a plástica dos contornos da vida densa ele uivava como lobo entre os canaviais que integravam a paisagem de sua Aldeia, e às vezes como caranguejo, para escapar de predadores, se entranhava no mangue, pregado na lama e no caos. Tudo isto para sobreviver a concretude, ao racional, ao pragmático, a esfera kafkiana que nos encerra diariamente, as prisões sem muros...
Soube outro dia, por criaturas aladas, que tentaram, mas sem êxito, fazer dele um grande mito, unificador de todas as ânsias e ambições. O guerreiro até que atentou para a fome de pajés algozes, e num destes jogos de poder se lançou como líder acreditando na honestidade de sua tribo.
Traído pelos seus e desolado em sua tribo, o guerreiro potiguara gritou, na escuridão do ser só, para Tupã que compreendeu o olhar deste guerreiro e lhe preparou uma canoa, e lhe contou um segredo às margens das águas que emergem do encontro do rio com o mar. Atento, ele ouviu, entrou na canoa, não disse uma só palavra, seguiu o curso do rio.
Não olhou para trás, ao se despir de todos encontrou na profundidade do rio a si mesmo. E, na quietude da noite em curso sorriu a Tupã, pois tinha em suas mãos o que sempre havia buscado.

Em homenagem ao meu amigo-artista, guerreiro potiguara, filho de Tupã. Com amor.