terça-feira, 19 de abril de 2016

19 de Abril

Todos os anos se comemora no Brasil o Dia do Índio. Nada contra a Data, entendo apenas que não consegue ainda expressar ou refletir um debate mais sincero sobre a condição indígena no Brasil.

Acho que muito distante até das políticas afirmativas no tocante à população negra, o reconhecimento étnico  indígenas ainda é muito tímido e talvez distante da realidade dos diferentes povos vivem aqui de modo ancestral.

Seria muito significativo se no campo da cultura, comunicação, artes, entre outros,  houvesse um maior  inclusão das questões indígenas do Brasil.

Ao assistir o Abraço da Serpente, filme colombiano dirigido por Ciro Guerra, lembrei de outro filme  provocador, o Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco. Como é desafiador pensar o mundo, a ciência, a cultura, o meio ambiente a partir de outra Cosmovisão. Filmes O Abraço da Serpente, Brincando nos Campos do Senhor, Kiriku e a Feiticeira,  Azur e Asmar,  O Menino e o Mundo,  falam de processos e sujeitos singulares,  deixam explicita a violência simbólica do processo civilizador, ou da colonização, da nossa indiferença cotidiana. Mas também nos apresentam outros exercícios de ver o mundo, os sujeitos e a particularidade de suas culturas, e de quanto essa diversidade humana é vital.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

GRANDES OLHOS E A VIOLÊNCIA PATRIMONIAL

Margaret Keane e sua obra artística
Foto de divulgação da CBS NEWS



Recentemente tive a oportunidade de ver o filme dirigido por Tim Burton( Big Eyes, 2014), e protagonizado por Amy Adams e Cristoph Waltz, sobre  a pintora Margaret Keane. Embora o filme seja ambientado nos anos 1950, a sua temática apresenta uma experiência vivida por mulheres em pleno Século XXI: a violência patrimonial.
O filme populariza a história da artista, que foi uma das mais rentáveis dos anos 1950, mas  cujo trabalho autoral só fora reconhecido após levar seu marido, Walter Keane, ao Tribunal. Motivo: roubo de propriedade intelectual. O marido por cerca de dez anos se apoderou do dinheiro  e do reconhecimento social que seria por direito de sua esposa, afirmando ser ele, o verdadeiro autor das obras de Margaret.
Apesar de toda excelência do filme, tanto pelos intérpretes, quanto na primorosa direção de arte e fotografia,  Big Eyes não me saiu da cabeça por me fazer lembrar inúmeras personagens femininas que enfrentam sob diferentes aspectos esse tipo de situação. Diria que a cultura de violência contra mulheres é complexa e tanto quanto as agressões físicas, humilhações verbais e estupros, é difícil falar publicamente sobre um contexto no qual os companheiros/companheiras (filhos, entre outros) das mulheres se apropriam de seus bens materiais e de sua propriedade intelectual.
Falar nesse assunto é difícil por se tratar da intimidade das pessoas, e por muitas mulheres ainda insistirem  em manter a imagem de estar vivendo relações justas, igualitárias, sem grandes problemas ou um ‘conto de fadas'.Ou porque ainda muitas querem manter uma reprodução dos papéis tradicionais de gênero em que o homem aparece como mantenedor, ainda que apenas em seu imaginário. Ou por uma situação ainda mais real que é o medo de se ferir, de perder e de morrer.
A questão é que a violência patrimonial é caracterizada por uma conduta que se traduz na retenção, subtração ou destruição parcial ou total de bens, de objetos, de instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos. Há situações de coerção, humilhações, roubo, enfim, de inúmeras apropriações indevidas. 
Todavia no tocante à violência patrimonial acho que além do direito ao que lhe pertence material e intelectualmente, há situações em que se roubam os desejos e necessidades da outra pessoa, os sonhos, a vontade de querer. 
Anos atras fiz uma pesquisa sobre participação das mulheres nos mercados das feiras orgânicas e impactos sobre a autonomia feminina, e as situações de violência patrimonial estavam sutilmente lá estabelecidas: no controle do dinheiro pelos homens; na apropriação da força de trabalho das mulheres por maridos, filhos; na subtração de suas necessidades básicas em detrimento às necessidades da unidade doméstica. Por outro lado, o acesso aos mercados, em alguns contextos, era conquistar o direito de ir e vir; de poder ver (re)conhecida suas capacidades; de poder desejar sem subordinar seus sonhos a outros, era conquistar legitimidade social.
Hoje por coincidência encontrei uma mãe que reclamava do filho, que queria impor a ela o seu sustento e de sua companheira. Aflita falava em procurar a Delegacia por se sentir ameaçada.
Por isso acho a violência patrimonial tão perversa quanto as demais tipologias de violência contra mulheres, porque no imaginário de quem a exercita, elas não estariam fazendo mais que sua obrigação de mãe, esposa, mulher… ou sendo ameaçadas e penalizadas por não cumprir as demandas de cônjuges, filhos(as), companheiros e companheiras.
O drama de Margaret Keane revela esse lado muitas vezes oculto das relações entre homens e esposas; mães e seus filhos(as) e entre as próprias mulheres.

domingo, 2 de novembro de 2014

Cemitério



Nunca tive medo deles. Na infância, minha mãe me levava sempre, pois cuidava do túmulo da família. Desde muito cedo era lugar comum. Um ritual mensal de visita, pois lá estavam minha avó, avô e uma tia, que como minha avó e minha mãe morreram antes de envelhecer, de chegar a tal melhor idade. 

Foi uma emoção inevitável ao ver Volver, do Almodóvar, sentir uma cumplicidade transcultural ao encontrar as mulheres cuidado de seus mortos( tão vivos, tão presentes). Também foi um momento singular a leitura da Solidão dos Moribundos, livro do Nobert Elias, pois veio cheio de reencontros com momentos da infância no Sertão, onde nós crianças colhíamos flores para vestir nossos mortos, parentes, amigos ou vizinhos. Então isso descortinou o medo de Morte. Mas hoje, depois de um filho, não de morrer…

Esse anos, depois de mais de uma década, reencontrei o Cemitério de minha infância ao me despedir de Ivontônio, amigo querido que partiu, coincidentemente no mesmo dia que minha mãe, e bem mais novo que ela. Entrei naquele lugar como numa casa antiga, conhecida e misteriosa… Para guardar o que ainda iria existir por um pouco de tempo, e constatar que que o Eterno que há nas pessoas transcende qualquer espaço físico e o ritual dos mortos…

Depois de guardar meu amigo fui sozinha aquele lugar da infância onde só encontrava a fotos dos avós e tia, e vi lá uma foto que havia feito de minha mãe. Acho que a melhor foto dela que já fiz pois conseguiu, milagrosamente, captar aquele olhar que para mim sempre sorriu.


Na memória de tudo que vivemos e do Todo nos encontramos, e nos deixamos partir em paz.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

UNIVERSIDADE E ELEIÇÕES: UM DEBATE NECESSÁRIO


Último dia 16 fui surpreendida pelo noticiário local e também por informações nas redes sociais sobre o tumulto na Universidade Federal da Paraíba, gerado por tensões entre parte da comunidade universitária, participantes de um Ato em defesa dos atuais candidatos à Presidência da República e Justiça Eleitoral, que resultou na intervenção da polícia militar na UFPB.


O acontecimento me chamou a atenção não só a partir dos argumentos de estudantes, docentes e técnicos da Instituição favoráveis ou contrários à intervenção da polícia no Campus, e todos os desdobramentos desse fato, realmente lamentável, na imprensa e sobretudo no cotidiano da Universidade. Mas, especialmente, pelo fato que ao longo dos anos paira sobre o ambiente universitário, sob meu ponto de vista, o esvaziamento do debate sobre o ensino superior nas plataformas dos candidatos.

Senti uma lacuna tremenda da presença da Universidade no debate público sobre as Eleições 2014. É claro que é terminantemente proibido pela legislação manifestações partidárias na instituição. De outro modo percebo que muitas categorias e segmentos sociais vêm colocando suas demandas e problematizando seu contexto de atuação e questionando os Programas de Governo de muitos candidatos. A UFPB ao longo de sua história contribuiu de forma excepcional também para a formação política de várias gerações, não é por acaso que muitos dos candidatos e parlamentares eleitos começaram sua trajetória política na Universidade, ou integram os quadros da Instituição.

No entanto, contraditoriamente, há mais recentemente  um esvaziamento da ação política da comunidade universitária - observando a política para além do partidarismo. 

Há poucos dias penso que o tempo é bem restrito para se discutir com os candidatos os pontos que para nós são estratégicos para o avanço das políticas de fomento à pesquisa, à estrutura das Universidades, à carreira docente, a economia do conhecimento e seu papel no desenvolvimento local sustentável, entre outros temas tão pertinentes porém que não se fazem visíveis.

Tomara que essa tensão provocada pelo acirramento da disputa nas Eleições 2014 possa, quem sabe, nos fazer pensar além das cores e bandeiras, e  oxalá consiga retirar a Universidade de um lugar secundário ou de invisibilidade dos Programas de Governo dos candidatos.





segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Exposição Feiras do Semiárido

    Acontece na manhã dessa terça-feira, 24, véspera de Natal, a Exposição Fotográfica Feiras do Semiárido, que apresenta o trabalho dos fotógrafos Carlos Azevêdo, Roberta Ramos e Sandra Raquew Azevêdo. A exposição será aberta durante a Feira Agroecológica realizada no Museu do Algodão, a partir das 6h, em Campina Grande. O Museu do Algodão fica situado à Rua Benjamin Constant, próximo ao Açude Velho.
    O trabalho é o resultado de um registro etnográfico nas feiras de produtos orgânicos organizadas por agricultoras e agricultores do Pólo Sindical da Borborema, nos municípios de Campina Grande e Lagoa Seca.                Durante dois anos os fotógrafos fizeram o registro do cotidiano dos agricultores, especialmente das mulheres rurais, nas feiras e em suas propriedades como parte integrante do projeto de pesquisa sobre a participação feminina no mercado de produtos orgânicos, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq.
Foto: Sandra Raquew Azevêdo
   As fotografias podem ser apreciadas por agricultores e consumidores da Feira durante mais um aniversário da Campanha Natal sem Veneno, que teve início em 2003, como marco inaugural do acesso dos agricultores familiares aos mercados de produtos orgânicos na Paraíba. O trabalho do Pólo Sindical da Borborema teve início em 1996, de acordo com Diógenes Chaves, técnico da entidade, no intuito consolidar dinâmicas de experimentação e intercambio na agricultura familiar voltados à produção agroecológica.
    Atualmente a entidade está à frente da realização de oito feiras, nos municípios de Campina Grande, Lagoa Seca, Esperança, Massaranduba, Alagoa Nova, Remígio e Solânea, envolvendo a produção e comercialização de produtos orgânicos de cerca de 120 agricultores familiares de 16 municípios da região do Agreste da Borborema.

Sobre os fotógrafos - Carlos Azevêdo é jornalista, docente do DECOM-UFPB e ganhador do Lambe-Lambe Novos Talentos da Fotografia Paraibana pela Agência Ensaio. Roberta Ramos é estudante de Comunicação Social, da UFCG e educomunciadora. E Sandra Raquew Azevêdo é jornalista, docente de jornalismo na UFPB e realiza pesquisas com o apoio do CNPq. Já participou das Mostras Fotográficas Lambe-Lambe Novos Talentos da Fotografia Paraibana, Mulheres Fotógrafas - panorama da fotografia brasileira produzida na Parahyba e Etnografias do Invisível (Coletivo Conspirando, Santiago do Chile).

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Ser-tão

Rumo à Cidade do Sol. Foto: Sandra Raquew Azevêdo

Celebro hoje o aniversário da minha cidade natal, Patos. Não tenho como esquecer, porque, de sobressalto, menstruei no mesmo dia do aniversário da cidade, décadas atrás. E essa travessia me fez fixar a data num ciclo que se repete. Compasso de tantas estações.
Não guardo ufanismos em torno desse lugar de origem, mas sei do muito que levo que se vincula profundamente a esse espaço. Migrei como tantas pessoas de minha geração. A migração, segundo o romance histórico, Malinche, é um ato de sobrevivência...

Patos, essa cidade como um rio, me atravessa. Cheguei e parti infinitas vezes, sempre diferente. Perdi pessoas insubstituíveis, mantive meus laços mais primitivos, e arrastei comigo um modo de ver a mim mesma e o mundo, diverso, como um fragmento desse lugar. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

As guerras não são apenas notícias...

Foto: Carlos Azevêdo. Chapada dos Guimarães, 2011.
Parece tão óbvio isso. Há dias um desconforto me ronda. Angustia provocada por uma foto produzida em meio às mortes na Síria, nas últimas semanas. Crianças mortas, tantas... Imensurável dor. Fiquei pensando no “silêncio” das notícias nas páginas de revistas e jornais. No continuum de mortes cotidianas, em diferentes lugares do Planeta... Nessa saturação de imagens de guerras...
As notícias desorientam, anestesiam muitas vezes. Consumimos informação quase em tempo integral, real, tão tudo, ao mesmo tempo-agora que talvez estejamos rompendo com algo relevante para a produção social das notícias: um tempo para pensar sobre elas; a hierarquia dos acontecimentos talvez...
Não é possível, penso, conciliar a imagem das crianças mortas na Síria com a saturação de imagens nas telas de computadores, TVs, redes sociais, incluindo no mesmo tempo-espaço o entretenimento, a piada do momento, o meme, as denúncias contra corrupção, a cobertura do Mensalão, a vinda dos médicos estrangeiros para o Brasil, os novos vídeos de humor no youtube ... as fotografias das comidas que digerimos como se fossem uma mesma pauta.
É muito particular o que digo: mas me senti tão assustada povoada com os rostos das crianças forçadas a deixar seu lugar, sua vida. E fiquei me questionando sobre o que nos faz acreditar que superamos a barbárie e a banalidade do século passado, ou ainda pensar que num mundo globalizado as guerras são setoriais? E crer que só a “Liga da Justiça” dos países desenvolvidos é capaz de promover a paz.
Talvez tenhamos entrado no Século XXI sob o signo do terror da inconsciência, inconsistência, ou num autismo voluntário, não sei... Sinto que dói e assusta, desestabiliza o que resta de humano.

Por fim, essa semana, durante o apagão no Nordeste me surpreendi com o clima de “terror”, me senti num daqueles filmes apocalípticos, lembrei de Orson Wells, na Guerra dos Mundos. Porque era uma agonia generalizada nas ruas da cidade de João Pessoa, no trânsito. Embora o mar estivesse lindo, embora o apagão também fosse uma oportunidade de voltar ao ciclo do tempo natural, nos sentíamos perdidos, desamparados sem o signo da luz elétrica, formigas atônitas. Lembrei nesse interstício da ausência de luz no sertão da infância, no luar, nas estrelas, nas pessoas conversando à luz de velas e lamparinas, lembrei das histórias, dos nossos mitos. E quis esquecer o mundo e voltar à Caverna de Platão.